

NÊMESIS E HÚBRIS - I Jorge Luiz da Silva Alves
Não houve como transigir, Fininha teria que me acompanhar naquela jornada pela História pernambucana. Tinha sido, desde o Rio de Janeiro, um malabarismo para equilibrar a agenda cultural com a turística. E, entre forrós, bolos de rolo, piscinas naturais, garapa da cana e bonecos de Olinda, ela suportou corajosamente minha teimosa lista de locais para turbinar o currículo Lattes: Guararapes, Cabo de São Agostinho e a sede das Ligas Camponesas, a casa de Alceu Valença, o Marco Zero, e o universo Brennand: as enormes esculturas no molhe, a oficina do Francisco e o Instituto do Ricardo.
Ao chegar nesse último, ela se rendeu à magnificência do acervo.
Mesmo conhecendo de outros estudos e pesquisas, o local provoca sempre um baque de ineditismo. O maior e mais preservado testemunho do que foi o Brasil Holandês, entre pinturas, armaduras, documentos, figuras em cera, reproduções do cotidiano de um momento em que nem mesmo nação éramos. Pretendia fazer um ou dois artigos sobre qualquer dos itens do museu, e tinha uma enorme dificuldade em escolher o tema, pois a oferta, de tão generosa, quedava-me, catatônico.
Fininha, folgazã-que-só, encontrou o setor dos alambiques originais onde os primeiros engenhos foram construídos ainda sob o crivo de Duarte Coelho. Pelas placas e livros, soubemos que um oficial holandês e um escrivão cristão-novo cuidaram da destilaria capturada no velho engenho luso em Olinda e trouxeram para a construção batava no Recife. Pronto: tinha, desde então, meu primeiro artigo. Rabisquei uns troços no editor de texto do celular para ter um futuro início e me virei para minha companheira... que não estava por perto.
Aos poucos, o local ficava cheio de mais visitantes, hora avançava e cadê a magrela?
Em bons cinco minutos de infrutífera procura, apelei para perguntas ao corpo auxiliar do museu.
Na famosa Sala de Armas, um rapazote vestido à moda seiscentista despachava sardentos gringos em fluente inglês. Não, disse-me num saboroso sotaque do Agreste, não vira a referida moça, mas me deu uma sugestão que achei curioso: geralmente muitos visitantes se deixam ir até o final do alpendre onde as estátuas de mármore trazidas por Nassau costumam ficar; no finzinho, uma pequena porta que leva o visitante até o salão das pinturas e tapeçarias, costuma atrair o público porque o acesso é feito por um corredor muito estreito, iluminação baça e com quadros que reproduzem o cotidiano dos holandeses em Recife com um intimidante realismo. Olhei para o rapazote para saber se era o famoso "modo marqueteiro", mas ele foi bem convincente na explicação.
Cheguei no alpendre e vi a danada. Já perto do final das estátuas.
De costas, a serelepe me convidava à curiosidade. Sorri: era a mesma que se fazia de enfarada com meu roteiro cultural? Não pensei duas vezes, afinal tinha vindo ao Nordeste por isso.
Quando me aproximei, ela ganhou a porta e se foi corredor adentro.
No que entrei, minha mente retornou aos tempos de infância nos parques de diversões no Rio-Guanabara. Parecia uma versão dos saudosos "trens fantasmas"... Telas caravaggianas, cenários e personagens que pareciam emergir da penumbra; ainda que reproduzindo a quente e despachada natureza colonial luso-brasileira, as pinturas, de ambos os lados das estreitas paredes, davam a impressão de andar ao meu lado. Um realismo sombrio, onde a vitalidade dos modelos reproduzidos em tela impregnavam os temas de vida, pulsante, quase que forçando dinamismo na expectativa de alguma tragédia.
E eis que a própria apareceu quase no final do trecho (Continua)
Jorge Luiz da Silva Alves
Enviado por Jorge Luiz da Silva Alves em 26/07/2025
Alterado em 27/07/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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