
ACONTECÊNCIAS INESPERADAS
Jorge Luiz da Silva Alves
Acompanhava a descida pelos Arcos da Lapa tecendo teses interessantes sobre a Chácara do Céu enquanto via, ao longo da extensa avenida sob o crepúsculo, o mar que banhava as fraldas do Pão de Açúcar, até ouvir a doce pergunta ao meu lado, no banco de madeira - localizou o diário de Laurinda? - e me deparei com uma espetacular cachoeira negra que descia do rosto redondo de olhos amendoados. Retinta em belíssima juventude, era óbvio que duas etnias subjugadas pelo eugenismo imperial produzira, após séculos de seleta amálgama, um roliço e vitaminado exemplar de brasilidade com sotaque lindamente guanabarino.
- Como saberias de meus intentos nessas grimpas tão distantes, perguntei?

- Porque já vi um dos teus por aqui.
- Como assim?, indaguei, curioso. Bruno? Ellen?
- Ele já foi. Estava fardado. Tinha vindo lá da conquista.
- E onde você o viu?
- Ele andava por aqui, sempre. Nem tinha esse carril. Gostava de café igual a tu. Falava muito comigo da sangueira que foi nas Lomas.
Resolvi entrar na neura, faltava pouco para o desembarque:
- Se ele subia sem o carril, então por onde seria? , desafiei a bonitona de vestidão velho (aliás: esfarrapado...)
- Ah, fácil! Por ali, ó - e apontou na direção da Nova Basílica da Cidade , na Avenida Chile.
Virei o rosto e reparei que existia, muito tênue, os restos de uma picada que acompanhava os Arcos a oeste.
E, de repente, o encaixe dum quebra-cabeça se fez: o primeiro dos Alves, meu "tetra-tataravô", escravo alforriado na Bahia, para lutar na Guerra do Paraguai em lugar de um branco-pernóstico dono de sua carta, curiosamente parente de Dona Laurinda, titular do que hoje chamamos de Parque das Ruínas. Peraí: eu, inconscientemente, vim parar em Santa Teresa pelos eflúvios de um passado que jamais imaginei?
Mas... como é que você...
................. ué?
Cadê a moça?!

Sol se pondo. Estação terminal à vista.
Num desvio, um carril dos tempos do "ronca".
E um sorriso cafuzo, que só eu via, me acenava num adeus.
Fininha não pode saber do café com conhaque, pelamordedeus...
Enviado por Jorge Luiz da Silva Alves em 10/08/2025